Por Ruy Cavalcante
"Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho" (I Co 9:14).
A passagem acima, em conjunto com a frase “Digno é o trabalhador de seu salário (ou alimento)”, que se trata de uma paráfrase de trechos referentes a opressão sofrida pelo trabalhador, na lei mosaica (Lv 19:13; Dt 24:14), contextualizada por Jesus (Mt 10:10; Lc 10:7) e Paulo (I Tm 5:18), são base absoluta para alguns, no que se refere ao direito que temos de sermos ressarcidos por nosso serviço prestado à Igreja.
Façamos uma brevíssima análise dos textos.
A ideia que Paulo apresenta em I Co 9:14 é facilmente perceptível no seu contexto. Note o que ele afirma:
“Não temos nós direito de comer e de beber? Não temos nós direito de levar conosco uma mulher irmã, como também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas? Ou só eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar?” (cf. versos 4-6).
Observe que a reivindicação de Paulo não se refere a salário, especialmente no que tange valores financeiros, antes ele reclama o direito a liberdade que os outros cristãos possuem, de constituir família, de comer, beber, de descansar e de ter suas necessidades básicas supridas por aqueles a quem dedicava sua vida integral. É importante frisar bem: ele reivindicava o direito que os outros também possuíam!
Ao falar sobre o direito a deixar de trabalhar, Paulo assume a ideia central tratada aqui, tentando explicar que sua dedicação integral lhe dá o direito de não precisar realizar tarefas seculares para que delas tire seu sustento. A compreensão correta de toda essa passagem, bem como as que serão analisadas posteriormente é justamente sustento, não pagamento. Ser sustentado é ter suas necessidades supridas, ser pago é receber valores monetários (ou itens que possam servir de moeda de troca), de forma que deles usufrua como bem entender.
Mais a frente ele diz:
“Se outros participam deste poder sobre vós, por que não, mais justamente, nós? Mas nós não usamos deste direito; antes, suportamos tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo.” (cf. verso 12).
Paulo insiste no tema, afirmando que por sua dedicação (ele inicia a falar de sua dedicação já no verso 1) ele, mais ainda do que os outros, possui direito a sustento, porém, por amor às pessoas, vem abrindo mão desse direito, para que não haja qualquer tipo de impedimento ou dificuldade para se anunciar o Evangelho. Acaba de me vir a lembrança de certo pastor, famoso, que cobrou R$ 50.000,00 apenas para pregar o evangelho em minha cidade, em 3 cultos, o que causou um total impedimento para que tais pregações ocorressem. Voltemos ao tema.
Paulo então faz a afirmação chave, nos versos 13 e 14:
“Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo estão junto ao altar participam do altar? Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho”.
Fica claro assim que Paulo não reivindica direito a salário, mas que, embora abra mão, discursa sobre o seu direito de ter suas necessidades supridas pelas pessoas a quem serve continuamente, ou seja, não é um trabalho esporádico, nem dedicado a pessoas que sequer conhece, mas um trabalho integral, contínuo, dedicado a seus próprios discípulos!
Por fim, aos que ainda defendem que Paulo fala sobre o direito a receber pagamento por pregar o evangelho, ou por adorar ao Senhor, ou por dar algumas aulas bíblicas na EBD, Paulo responde com a seguinte afirmação:
“Mas eu de nenhuma destas coisas usei e não escrevi isso para que assim se faça comigo; porque melhor me fora morrer do que alguém fazer vã esta minha glória. Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim se não anunciar o evangelho!” (cf. versos 15-16).
Não me parece que ele defende a ideia de que é lícito deixar de pregar, adorar ou ensinar o Evangelho no caso de não pagarem por isso. Parece para você?
Em relação aos textos onde se diz que “Digno é o trabalhador de seu salário”, apresentados anteriormente, precisamos observar alguns pontos:
1 - Como disse, o assunto tratado em seus respectivos contextos do Velho Testamento é a opressão contra o trabalhador. Não se pode deixar de pagar o salário de quem executou um serviço contratado, nem se pode deixar de lhe suprir suas necessidades durante o tempo em que executa seu trabalho;
2 - Jesus faz uma aplicação deste conceito, uma contextualização, ordenando que seus discípulos, quando de sua jornada para anunciar a chegada do Reino, não levassem mantimentos, pois suas necessidades seriam supridas por Deus, uma vez que estariam totalmente dedicados a esta missão, não podendo se embaraçar com outras preocupações. Observe algumas diferentes traduções da expressão em questão, contida em Mateus 10:10b:
- “porque digno é o trabalhador do seu alimento” (RA, grafia brasileira);
- “porque digno é o operário do seu alimento” (RC);
- “pois o trabalhador é digno do seu sustento” (NVI);
- “pois o trabalhador tem o direito de receber o que precisa para viver” (NTLH).
Claramente Jesus, em sua contextualização, não trata de dinheiro ou pagamento por serviços prestados.
3 - Na contextualização realizada por Paulo (I Tm 5:18), apesar de usar a expressão “salário”, o próprio contexto nega essa hipótese, uma vez que desde o verso primeiro o tema central de sua mensagem é o respeito que deve ser dedicado a quem de direito, como é o caso dos anciãos e jovens cristãos (v. 1), as viúvas (v. 2), a própria família (v. 8), e os presbíteros (v. 17), onde estes merecem honra dobrada, por seu serviço prestado à comunidade eclesiástica, especialmente se nisso incluir a pregação e o ensino do Evangelho. Lembre, a duplicada honra era para todos os presbíteros, mesmo que não se dedicassem à pregação e ensino, embora quem assim procedesse seria ainda mais digno de recebê-la. Não podemos retirar o verso 17 e 18 do contexto geral da passagem, atribuindo a ele um significado financeiro quando todo o resto trata apenas de honra e respeito, não de salário ou de valores monetários.
Dessa forma, afirmo com plena convicção que, ao falar sobre "viver do evangelho", na perspectiva da graça, as Escrituras se referem a viver na dependência de Deus, seja na escassez ou na abundancia, conforme viveram os discípulos de Jesus durante a viagem missionária por ele ordenada (Mt 10), e também conforme viveu Paulo, ratificando isso ao dizer:
"Sei passar falta, e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome; tanto em ter abundância, como em padecer necessidade, Posso todas as coisas naquele que me fortalece" (Fl 4:12-13).
Ora, “poder todas as coisas naquele que nos fortalece” não significa ter o poder ou o direito a conquistar tudo o que desejamos, mas ter a força para suportar todas as intempéries da vida, sem com isso desfalecer ou negar a fé em Jesus Cristo.
É realmente uma pena que muitos resumam toda a obra de Cristo numa simples negociação financeira...
Por Ruy Cavalcante
Não é novidade para ninguém meu posicionamento firme em relação ao que é verdadeiro dentro do âmbito das práticas cristãs. Para mim, se for bíblico é verdadeiro, é de Deus, se não for bíblico, se não foi ensinado na palavra de Deus, não é dEle logo, é maldito (Gl 1:8).
Não há a mínima margem para eu relativizar esse meu posicionamento, embora eu reconheça ter isso um ar de radicalismo xiita.
Posto isso, gostaria de fazer alguns comentários sobre uma prática comum dentro de boa parte de nossas igrejas, especialmente entre as adeptas do movimento neopentecostal (apesar de a maioria delas negar fazer parte desse movimento). Em poucas linhas, falarei sobre os “Atos proféticos”.
Bem, por profecia entende-se uma mensagem enviada diretamente de Deus, por intermédio de seus servos, geralmente denominados profetas. Se o remetente for qualquer outra pessoa, a mensagem não pode ser considerada uma profecia (Ez 13:7-8; Jr 23:16-18).
Dessa forma, podemos considerar (se é que existem) “atos proféticos” como atitudes que anunciam uma mensagem de Deus, podendo ser um acontecimento, um alerta, etc.
Os que ensinam tais práticas têm, como principal fonte doutrinária, a passagem do vale de ossos secos, descrita em Ezequiel 37. Ora, posso perfeitamente, através desta passagem, considerar que atos proféticos existem, embora me pareça que tal conclusão, baseada apenas nesta passagem, pareça ser meio que forçada. Mas até mesmo numa leitura superficial, podemos perceber claras diferenças entre os “atos proféticos” ensinados e praticados hoje em dia, e este, levado a cabo pelo profeta Ezequiel.
Vou direto ao ponto, veja só o que diz os versos 3 e 4:
“Ele me perguntou: Filho do homem, poderão viver estes ossos? Respondi: Senhor Deus, tu o sabes. Então me disse: Profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor”.
Claro como a neve não? Ainda que alguém considere isso um verdadeiro ato profético, foi uma ação ordenada diretamente por Deus!
Ezequiel não planejou nada, não elaborou nenhum plano com a igreja, não fez jejum, não invocou anjos, ele simplesmente obedeceu ao que Deus o mandou fazer. Nada partiu da própria vontade de Ezequiel, nada.
Apesar da clareza desta passagem, hoje em dia as pessoas simplesmente não se importam com a verdade bíblica, com os alertas de Deus contra os que profetizam falsamente, elas realizam seus planos mesmo que isso contrarie os ensinamentos imutáveis de Deus.
Muitos de nós apenas nos importamos com uma coisa: Crescimento. Se nossas atitudes promoverem o crescimento da igreja, tocamos o barco em frente, pois crescimento numérico traz consigo muitas outras vantagens. Poder de barganha política, aumento da arrecadação, credibilidade ministerial, e por ai vai. Por isso agimos contra a palavra de Deus sem o menor pudor.
Não me estenderei nessa questão, mas afirmo com total convicção: Os atos proféticos promovidos por nossa geração são apenas mais um câncer que assola a igreja. Atos realizados sem a ordenança expressa de Deus, delírios absurdos que iludem o povo tão sedento de amor, paz e justiça, mas que muitas vezes só encontra lobos vorazes nas cadeiras eclesiásticas, prontos para depenarem o primeiro leigo que aparecer nas fileiras de sua “igreja”.
São na verdade atos patéticos, de uma turma que tenta de todas as formas tornar a igreja num grande circo, onde palhaços são a atração principal.
Fonte da imagem: www.mir12.com.br
Por Ruy Cavalcante
A palavra “narcisismo” é derivada da Mitologia Grega. Narciso era um jovem e belo rapaz (não, não era eu, rsrs) que rejeitou a ninfa Eco, que desesperadamente o desejava. Como punição, foi amaldiçoado de forma a apaixonar-se incontrolavelmente por sua própria imagem refletida na água.
O narcisismo excessivo dificulta o individuo a ter uma vida satisfatória, é reconhecido como um estado patológico e recebe o nome de Transtorno de personalidade narcisista. Indivíduos com o transtorno julgam-se, dentre outros, grandiosos e absolutamente especiais.
Posto isso, gostaria de falar um pouco da característica narcisista da igreja neoevangélica, que tem seus primeiros sintomas com o advento do pentecostalismo, mas que encontra seu auge totalmente estabelecido nas igrejas neopentecostais.
É incrível como o consenso nessas igrejas é que somos de uma grandiosidade extrema. Expressões como “Eu profetizo”, “Eu declaro”, “Eu decreto”, “Eu ganho almas”, “Eu determino”, “minhas palavras (ou nossas palavras) tem poder”, e coisas afins, passaram a fazer parte do “Canon” evangélico, e são ditas com pompas de autoridade monárquica.
O pior é que as igrejas históricas também começam a absorver tais procedimentos, pois é algo extremamente infectante. Passamos a acreditar de fato que temos tanto poder e grandiosidade assim.
Nossas músicas cantam isso, nossos púlpitos anunciam isso, e em nossas orações esbravejamos palavras de ordem espirituais, como se pudéssemos de fato “trazer coisas a existência”, ou exigir alguma coisa dos anjos ou mesmo de Deus.
A coisa fica ainda mais séria quando vemos lideres e irmãos anunciando maldições sobre a vida de outros, declarando derrotas na vida daqueles que discordam de suas afirmações, ou que questionam seus ensinamentos, sob a suposição de que possuem tal poder. Pior ainda por ser algo que se prolifera e, quando menos percebemos, também estamos ameaçando com maldições espirituais aqueles que não se encaixam em nosso padrão de convivência. Tudo isso fruto dessa síndrome narcisista que tem tomado conta de nossa vida, fazendo-nos acreditar que somos poderosos.
Além disso, o desejo hoje parece ser o inverso do ensinado por Cristo, quando diz:
“Jesus os chamou e disse: "Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos”. (Marcos 10:41-44)
Hoje ensinam o contrário, ensinam que somos especiais, que o líder deve ser honrado até mesmo com suas finanças, que temos autoridade sobre a vida um do outro. É a velha história, manda quem pode, obedece quem tem juízo. E todos querem obedecer, não porque são humildes, mas por desejar um dia ser obedecidos igualmente, por outros irmãos novatos no processo.
Tudo é um jogo de interesses, todos querem ser servidos, todos se acham especiais. Não se deseja mais ser o servo do irmão, mas o líder de sua vida. E a roda não para de girar, o escravo de hoje se submete a isso para ser honrado com a liderança de amanhã.
Essas coisas são muito estranhas para mim, pois não encontro nada disso no evangelho. Por esse motivo também não entendo a relutância em abandonar esse tipo de conceito, em se submeter à verdade bíblica, aos exemplos e palavras de Cristo.
Por hora gostaria apenas de declarar o seguinte: Eu não tenho autoridade, minhas palavras não têm poder e eu não preciso ser temido. Eu quero cantar canções que engrandeçam Deus e não a mim, eu quero pregar e ouvir o anúncio de palavras que valorizem Cristo e não o meu ego. Eu quero servir e não ser servido.
E que Deus tenha misericórdia de mim todas as vezes que eu desejar o contrário disso, me fazendo retornar à minha sanidade espiritual.
Por Ruy Cavalcante
Há algo acontecendo no Brasil que
não se pode negar nem mascarar: A igreja evangélica está crescendo, aliás, está
crescendo muito, de forma explosiva, numa progressão geométrica cuja ‘razão’ é
bem alta (quem lembra as aulas de PA e PG, em matemática, vai entender).
As causas de tal crescimento são
muitas, mas infelizmente pouco tem haver com o Evangelho puro e simples
(desculpe se parece uma visão fundamentalista). Carecemos de pesquisas científicas
a respeito, mas de forma empírica, com um mínimo de atenção, podemos perceber
que grande parte desse crescimento, se constitui de pessoas em busca de
conforto.
As pessoas estão freqüentando
igrejas (e não vivendo como igreja), pois desejam uma vida melhor, com melhores
empregos, melhores relacionamentos, melhores bens, mais saúde, mais alegria.
Isso tudo é muito bom realmente, mas me preocupa quando este é o objetivo fim
de uma vida com Jesus. Fico inquieto ao perceber que, aparentemente, a maioria não
entendeu o foco do Evangelho, o motivo pelo qual Jesus foi morto, a intenção de
Deus ao executar seu unigênito.
Vou resumir então: Jesus morreu
não para que eu tivesse uma boa vida nesta terra, mas para que eu não fosse
condenado por causa da ‘boa vida’ que eu levava, antes sobre si mesmo recebeu a
justiça (morte) que era contra mim, para que eu vivesse e o servisse para
sempre, com ou sem conforto (Rm 6:3; Mc 8:34; Rm 8:36).
Se observarmos a vida dos
primeiros discípulos, especialmente dos apóstolos, perceberemos que nenhum
deles viveu de forma confortável, isento de problemas e preocupações, aliás, se
tem algo que não lhes faltou foram problemas (2 Co 11:23-28; At 16:22-24; 2 Tm
3:12), e isso já seria motivo suficiente para que alguém, com zelo pela verdade,
perdesse o crédito em pregações que anunciam uma vida tranqüila, sem dor nem
sofrimento, aos que se entregam a Cristo.
Entretanto, não posso negar que
em Cristo conquistamos conforto e segurança, não conforme o que as pessoas têm
buscado incessantemente, mas um conforto duradouro, definitivo, eterno, assim
como a segurança de que isto de fato acontecerá.
Ou seja, em Cristo temos a
segurança de que nossos pecados serão perdoados e de que não entraremos em
juízo, antes, habitaremos com Ele eternamente, sem dor, sem sofrimento, sem
lágrimas, pois ele converterá nosso pranto em riso. Mas não agora, não nesta
terra. Na terra temos a segurança, mas o conforto é somente na glória.
Deus pode nos dar conforto aqui e
agora? Claro que pode, Ele é Deus e pode fazer o que quiser. Mas isso depende
exclusivamente da vontade dEle, não da nossa, pois não existe essa promessa, e
nem temos autoridade para exigir nada (precisamos nos enxergar).
“Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me
compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que
corre, mas de Deus, que se compadece” (Romanos 9:15-16).
Nada contra o crescimento, mas que ele ocorra baseado num
Evangelho verdadeiro, assim teremos vida, assim teremos paz.
Ariovaldo Ramos
Quando, na década de 80, a teologia da prosperidade chegou ao Brasil,
ela veio como uma nova tese sobre a fé, prometia o céu aqui para o que tivesse
certo tipo de fé. As promessas eram as mais mirabolantes: garantia de saúde a
toda prova, riqueza, carros maravilhosos, salários altíssimos, posições de
liderança, prosperidade ampla, geral e irrestrita.
Lembro-me de, nessa época, ter ouvido de um ferrenho seguidor dessa
teologia que, quem tivesse fé poderia, inclusive, negociar com Deus a data de
sua morte, afirmava que, na nova condição de fé, em que se encontrava, Deus
teria de negociar com ele a data de sua partida para mundo dos que aguardam a
ressurreição do corpo.
Estamos, há mais de vinte anos convivendo com isso, talvez, por isso, a
grande pergunta sobre essa teologia seja: Como têm conseguido permanecer por
tanto tempo? A tentação é responder a questão com uma sonora declaração sobre a
veracidade desta proposição, ou seja, permanece porque é verdade, quem tem fé
tem tudo isso e muito mais. Entretanto, quando se faz uma pesquisa, por mais
elementar, o que se constata é que as promessas da teologia da prosperidade não
se cumpriram, e, de fato, nem o poderiam, quando as regras da exegese e da
hermenêutica são respeitadas, percebe-se: não há respaldo bíblico. Então qual a
razão para essa longevidade?
Em primeiro lugar, a vida longa se sustenta pela criatividade, os
pregadores dessa mensagem estão sempre se reinventando, vivem de promover
espetáculos ás custas da boa fé do povo. Mesmo os mais discretos estão sempre
expondo o povo, em alguns casos, quando mais simplório melhor, em outros,
quanto mais bonita, e note-se o feminino, melhor.
Além disso, é uma sucessão de invencionices: um dia é passar pela porta
x, outro é tocar a trombeta y, ou empunhar a espada z, ou cobrir-se do manto x,
e, por aí vai. Isso sem contar o sem número de amuletos ungidos, de águas
fluidificadas e de bênçãos especiais. Suas igrejas são verdadeiros movimentos
de massa, dirigidos por “pop stars” que tornam amadores os mais respeitados
animadores de auditório da TV brasileira.
Em segundo lugar, a vida longa se mantém pela penitência; os pregadores
dessa panacéia descobriram que o povo gosta de pagar pelos benefícios que
recebe, algo como “não dever nada a ninguém”, fruto da cultura de penitência
amplamente disseminada na igreja romana medieval, aliás, grande causadora da
reforma protestante. Tudo nessas igrejas é pago. Ainda que cada movimento
financeiro seja chamado de oferta, trata-se, na prática, de pagamento pela
benção.
Deus foi transformado num gordo e avaro banqueiro que está pronto a
repartir as suas benesses para quem pagar bem, assim, o fiel é aquele que paga
e o faz pela fé; a oferta, nessas comunidades, é a única prova de fé que alguém
pode apresentar.
Na idade média, como até hoje, entre os romanos, Deus podia ser pago com
sacrifícios, tais como: carregar a cruz por um longo caminho num arremedo da
via “crucis”, ou subir de joelhos um número absurdo de degraus, ou, em último
caso, acender uma velinha qualquer, não é preciso dizer que a maioria escolhe a
vela. Mas, isso é no romanismo!
Quem quer prosperidade, cura, promoções, carrões e outros beneplácitos
similares tem de pagar em moeda corrente, afinal, dinheiro chama dinheiro, diz
a crença popular. E tem de pagar antes de receber e, se não receber não pode
reclamar, porque esse deus sabe o que faz e, se não liberou a bênção é porque
não recebeu o suficiente ou não encontrou a fé meritória. Esses pregadores têm
o consumidor ideal.
Em terceiro lugar são longevos porque justificam o pior do capitalismo,
embora, segundo Weber, o capitalismo seja fruto da ética protestante, (aliás, a
bem da verdade é preciso que se diga que o capitalismo descrito por Max Weber
em seu livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo” não é, nem de
longe, o praticado hoje, que se sustenta no consumismo, enquanto aquele se erguia
da poupança.); a fé cristã, de modo geral, não se dá bem com a busca pela
riqueza como objetivo em si.
A chegada, porém, dessa teologia mudou o quadro, o pior do capital está,
finalmente, justificado, foi promovido de grilhão que manieta a fé em troféu da
mesma. Antes, o que se assenhoreava do capital tornava-se o avaro acumulador
egoísta, agora, nessa tese, é o protótipo do ser humano de fé. Antes, o que
corria atrás dos bens materiais era um mundano, hoje, para esses palradores, é
o que busca o cumprimento das promessas celestiais.
Juntamente com o capitalismo, essa mensagem justifica o individualismo,
a bênção é para o que tem fé, ela é inalienável e intransferível. Eu soube de
uma igreja dessas que, num rasgo de coerência, proibiu qualquer socorro social
na comunidade para não premiar os que não tem fé. Assim, quem tem fé tem tudo
quem não tem fé não tem nada.
Antes, ter fé em Cristo colocava o sujeito na estrada da solidariedade,
hoje, nesse tipo de pregação, o coloca no barranco da arrogância. Toda
“esperteza” está justificada e incentivada. Não é de estranhar que ética seja
um artigo em falta na vida e no “shopping center” de fé desses “ministros”.
Mas, o que isso tudo tem gerado, de verdade? Decepção, fragorosa
decepção é tudo o que está sobrando no frigir dos ovos. As bênçãos mirabolantes
não vieram porque Deus nunca as prometeu, e Deus não pode ser manipulado. O
sucesso e a riqueza que, porventura, vieram foram mais fruto de manobras
“espertalhonas”, para dizer o mínimo, do que resultado de fé.
Aliás, para muitos foi ficando claro que o que chamavam de fé, nada mais
era do que a ganância que cega; o antigo conto do vigário foi substituído pelo
conto do pastor. Gente houve que ficou doente, mas, escondeu; perdeu o emprego,
mas, mentiu; acreditou ter recebido a cura, encerrou o tratamento médico e
morreu. Um bocado de gente tentando salvar as aparências, tentando defender os
seus lideres de suas próprias mentiras e deslizes éticos e morais; um mundo
marcado pela esquizofrenia.
O individualismo acabou por gerar frieza, solidão e, principalmente,
perda de identidade, porque a gente só se torna em comunidade.
Tudo isso acontecendo enquanto muitos fiéis observavam o contraste entre
si e seus pastores, eles sendo alcançados pela perda de bens, pela angústia de
uma fé inoperante, pela perda de entes queridos que julgavam absolutamente
curados, e os pastores se enriquecendo, melhorando sensivelmente o padrão de
vida, adquirindo patrimônio digno de nota, sendo contados entre o “jet set”,
virando artistas de TV, tudo em nome de um evangelho que diziam ter de ser
pregado, e que as suas novas e portentosas posses avalizavam.
E onde estão estes decepcionados? E para onde estão indo os seus pares?
Muitos estão, literalmente, por aí, perderam aquela fé, mas não acharam a que
os apóstolos e profetas da escritura judaico-cristã anunciaram; ouviram o nome
Cristo, mas não o encontraram e pararam de procurar. Talvez, estejam perdidos
para evangelho; para sempre.
Outros, no meio de tudo isso, foram achados por Cristo, e estão
procurando pelo lugar onde ele se encontra. Para os primeiros não há muito que
fazer a não ser interceder diante do Eterno, para que se apiede dos que foram
vergonhosamente enganados; para os que estão a procura, entretanto, é preciso
desenvolver uma pastoral.
Eles não estão chegando como chegam os que estão em processo de
reconhecimento de Deus e do seu Cristo. Estão batendo às portas das
comunidades, que julgam sérias com a Bíblia, à procura de cura para a sua fé,
para a sua forma de ser crente, para a sua esperança de salvação, para a sua
falta de comunidade e para a sua confusão doutrinária.
Precisam, finalmente, ver a Jesus Cristo e a si mesmos; precisam, em
meio a tanta desinformação encontrar o ensino, em meio a tanto engano recuperar
a esperança. Necessitam de comunidade e de identidade, de abraço e de
paciência, de paz e de alento, de fraternidade e de exemplo, de doutrina e de
vida abundante.
Quem quer que há de recebê-los terá de preparar-se para tanto, mesmo porque,
ainda que certos da confusão a que foram expostos, a cultura que trazem é a
única que têm, e nos momentos de crise, de qualquer natureza, será a partir
desta que reagirão, até que o discipulado bíblico construa, com o tempo, uma
nova e saudável cultura.
Hoje, para além de tudo o que
encerra a sua missão, a Igreja tem de corrigir os erros que, em seu nome, e, em
muitos casos, sob a sua silenciosa conivência, foram e, ainda, estão sendo
cometidos.
http://ariovaldoramosblog.blogspot.com.br
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Minha opinião é que essa teologia da prosperidade é um cancer, e ainda destruirá muitas vidas.
Por Ruy Cavalcante
Uma das
coisas que eu desejei que ocorressem em 2012 era que diminuísse nossa mania de
sacralizar músicas cristãs (ou gospels, se preferir). Infelizmente isso não
aconteceu. Na verdade piorou.
Cada dia
mais, damos às canções um status que deveria pertencer apenas à Palavra de
Deus. Canonizamos músicas pelo simples fato de haverem sido compostas por crentes
evangélicos, e blindamo-las de toda forma de critica, ainda que o próprio
evangelho ensine o contrário do que sua letra afirma.
De certa forma,
parece que a maioria de nós resumiu toda a adoração a Deus, na simples atitude
de cantar uma música de mãos levantas, por isso não admitimos que ela tenha um
papel secundário dentro do processo de adoração cristã. Em muitos casos ela se
tornou o carro chefe, o personagem principal de nossos cultos, como se Deus
fosse apenas um expectador de nossas apresentações musicais.
Não poderia
deixar que o ano terminasse sem dizer algo a vocês, meus irmãos amados:
“A música é
apenas uma das formas do ser humano EXPRESSAR sua adoração a Deus, não é
sagrada, não é adoração em si mesma, não tem vida”.
Vida temos
nós, dada por Deus, portanto, somos nós quem adoramos, e isso se faz,
principalmente, sendo fiel a Deus. Deus pode suscitar pedras para adorá-lo, mas
não é seu desejo ser adorado por coisas inanimadas, e sim por seres humanos.
É urgente
a nossa necessidade de aprender mais sobre adoração, e eu queria deixar uma
pequena contribuição.
Adoração
é muito mais do que cantar. A adoração verdadeira, na maioria das vezes, sequer
faz uso de palavras, pois não é algo externo, palpável, audível, mas interna,
pessoal, espiritual, que flui do interior do ser humano. Vejamos um exemplo do
que eu estou tentando dizer:
“Tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome; adorai o Senhor
vestidos de trajes santos”. (Sl 29:2)
Note que interessante a
afirmação do salmista, a respeito da adoração. Ele diz: “adorai o Senhor vestidos de
trajes santos” (JFA-RA, grafia brasileira). Outra tradução diz: “adorai
o SENHOR na beleza da sua santidade” (JFA-RC).
Sua afirmação e imperatividade
são tão claras, que dispensam maiores preocupações exegéticas. Ele não tutela a
adoração a um entoar de voz, nem tampouco ao levantar de mãos e derramar de
lágrimas, mas a uma vida de santidade. Precisamos adorar a Deus revestidos de
santidade, essa é a verdadeira adoração.
Seja sincero, que sentido há
numa adoração desprovida de obediência a Deus e fidelidade a sua Palavra? De
que adianta cantar, chorar e levantar as mãos no culto, se fora dele eu não
vivo uma vida digna de aceitação da parte de Deus. Chorar no culto e fazer
chorar fora dele não tem o menor valor.
O próprio Jesus disse: “Nem
todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele
que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7:21, ver também o contexto). Isso também significa que de nada
adianta cantar lindas canções de adoração, pois se eu não sou fiel a Ele,
seremos apenas como o sino que ressoa, muito barulho, mas que sua função não
perdura mais que alguns segundos. Seremos adoradores apenas de lábios, mas com
o coração distante de Deus, e como diriam os antigos, nossa adoração não passa
do teto.
Por falar em adorador, chega a
ser cômico quando ouço alguém se apresentar como adorador do Senhor, pois
sempre significa que ele é apenas um cantor gospel ou, quando muito, um
ministro de louvor na igreja. Admira-me tanto equivoco.
Outro engano absurdo é quando o ministro diz à congregação: “Dê o seu melhor para Deus!”.
Sempre entendem como: “Pule, grite, cante!”.
Se o nosso melhor para Deus for
apenas um punhado de palmas e gritos, temo pelo nosso futuro na glória.
Bom, 2013 vem ai, logo mais a
maioria de nós estará junto dos seus, comemorando mais uma passagem de ano. Vou
ficando por aqui, embora tenha a devida noção de que há muito mais que se dizer
a respeito deste assunto.
Ainda assim, meu desejo para
você, no ano que chega, é que possa caminhar cada dia mais nos trilhos
fundamentados pelos apóstolos (os verdadeiros), aproximadamente dois mil anos
atrás, e que possamos ser uma verdadeira geração de adoradores, reconhecidos não
pelas canções que entoamos, mas pela beleza da santidade em que caminhamos.
Deus abençoe a todos nós. Feliz
2013!
Finalizando esta série de artigos em alusão ao dia da Reforma Protestante, que se comemora hoje, dia 31 de outubro, a última consequência do movimento
neopentecostal sobre a comunidade evangélica acreana (e brasileira) que
trataremos neste trabalho, é a importância exagerada, quase canônica,
que as igrejas adeptas do movimento atribuem às experiências pessoais, em
especial aquelas supostamente sobrenaturais.
Esse
empirismo é
a principal base de sustentação para todas as falsas doutrinas que acompanham o
movimento neopentecostal. Por exemplo, quando se anuncia a prosperidade
financeira como uma promessa de Deus à igreja, estas afirmações são perpetuadas
pela experiência pessoal de pessoas que de fato prosperaram após suas
conversões. Dessa forma ignorasse completamente as incontáveis famílias que não
alcançaram tal “benção”, para enfatizar a veracidade de tais doutrinas através
da vida de minorias.
Entretanto,
a bíblia é clara quando afirma que “Deus não
faz acepção de pessoas”. Ora, se de fato a prosperidade financeira fosse uma
promessa de Deus à igreja, não haveriam exceções, não alcançariam esta promessa
apenas uma parcela mínima da população evangélica, especialmente quando esse
grupo, na prática, nem sempre possui um testemunho de fidelidade cristã.
Infelizmente
a comunidade evangélica rio-branquense tem se deixado conduzir muitas vezes
apenas por experiências pessoais, deixando a Palavra imutável de Deus em segundo
plano, e não aceita as verdade ali contidas, exceto aquelas que são
interessantes aos seus desejos pessoais.
Porém
a ênfase nas experiências vai muito além da questão da prosperidade. Manifestações
alheias ao evangelho são comuns, nos cultos neopentecostais, o que em Rio
Branco não poderia ser diferente. Entretanto, a bíblia diz que:
Há diferentes formas de atuação, mas é
o mesmo Deus quem efetua tudo em todos. A cada um, porém, é dada a
manifestação do Espírito, visando ao bem comum” (I Co 12:6-7, NVI).
Em
outras traduções temos:
E há
diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A
manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso (JFA-RA).
E há
diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a
manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil (JFA-RC).
Dessa
forma, a Palavra de Deus não nega que existam manifestações espirituais, porém
limita aquelas que são de fato realizadas pelo Espírito Santo ao campo da
utilidade e do bem comum a todos, ou seja, não se trata de manifestações
pessoais, mas operações do Espírito que beneficiam a todos da congregação, de
forma que haja alguma utilidade prática para a vida cristã, o que nem sempre
(ou quase nunca) tem acontecido nas manifestações carismáticas em igrejas
neopentecostais da capital acreana.
É
possível ver constantemente pessoas “caindo no poder”, falando em línguas
desordenadamente, trazendo a todo instante novas revelações e profecias,
afirmando terem sido arrebatadas no culto, ou ainda sendo tomadas por 'unções extravagantes', e diversas outras experiências que quase nunca trazem
consigo proveito algum para a igreja, apenas criam uma atmosfera supostamente
espiritual, sobrenatural, e tornam “especiais” as pessoas que alegam ter
experimentado tais manifestações. Isso tudo acaba gerando uma corrida em busca deste
“sobrenatural”, para que, aquelas que não experimentaram, não sejam
consideradas carnais, o que geralmente acontece.
Assim,
de experiência em experiência, a igreja vai sendo conduzida por caminhos nem
sempre aprovados pelo Evangelho de Jesus Cristo, de forma que passam a
ser consideradas tão ou mais importantes para a igreja do que a revelação
escrita. Este erro é cometido pela maior parte das seitas existentes que, em
determinado momento da história, seus pioneiros viveram experiências
sobrenaturais, inexplicáveis e, deixando de lado os conselhos bíblicos, se
entregaram àquelas manifestações e delas desenvolveram novos sistemas
religiosos pseudo cristãos.
Assim finalizo esta série de artigos, convicto de que necessitamos de um retorno ao Evangelho puro e simples de Jesus, retomando as bases do protestantismo e, sem demora, afastando todo ensinamento contrário às sagradas escrituras, ainda que promovam uma explosão de milagres.
“Todo ensinamento contrário às Sagradas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres." (Martinho Lutero)
Empirismo é um movimento que acredita nas experiências como únicas (ou principais) formadoras
das idéias, discordando, portanto, da noção de idéias inatas. No empirismo, a sabedoria é
adquirida por percepções.
Dando continuidade aos artigos sobre os diversos prejuízos causados à Igreja, através do movimento neopentecostal, falarei agora sobre aquele no qual mais nos apegamos. Toda essa gama
de informações doutrinárias, nem sempre verdadeiras (ou quase nunca), oriundas
da confissão positiva e da teologia da prosperidade desenvolve um novo sistema
filosófico dentro das igrejas neopentecostais, a saber, o triunfalismo. Quando
envoltos a esta filosofia, a igreja tende a apresentar excessiva e absoluta
confiança no sucesso terreno, e é exatamente assim que as igrejas
neopentecostais em Rio Branco agem e tentam influenciar aquelas que ainda não se
convenceram do valor atribuído ao movimento.
Os grupos
locais, formados dentro das redes sociais são um bom termômetro para observarmos
isso. Frases de efeito, bradando sobre vitórias, são repetidas como mantras,
insistentemente, entre seus adeptos. As mais comuns
são do tipo “crente não conhece derrota!”, “crente nasceu para vencer!”, “você
é cabeça e não cauda!” e outras afins que, não obstante os ensinamentos
bíblicos, fazem sempre referência a conquistas terrenas.
Dessa forma,
tem sido criada uma cosmovisão deturpada entre boa parte da comunidade
evangélica rio-branquense (e brasileira) sobre o tema “vitória cristã”, de forma que até mesmo
as estratégias de evangelismo se apegam a promessas vazias, proselitismos e
chavões de vitória, tentando convencer a população de que, uma vez convertido,
todos os problemas do indivíduo serão resolvidos.
Maurício
Zágari, jornalista, teólogo e escritor premiado, em seu recente livro “A
verdadeira vitória do cristão” desconstrói esse pensamento triunfalista de
maneira extremamente coesa, extraindo aquilo que a bíblia realmente afirma
sobre o triunfo que Deus promete a cada um de seus filhos. Ele diz:
(...)
nós nos tornamos vitoriosos como herdeiros da vitória de Deus sobre o mundo, o
diabo e a morte. E, ao se tornar
vitorioso sobre a morte, Jesus nos
torna vitoriosos sobre a morte. Com isso, ao triunfarmos sobre a morte, pelo
sangue de Cristo, recebemos como vitória a vida eterna.
Ao
compreendermos essa realidade, podemos dizer sem medo a frase “a vitória é
nossa, pelo sangue de Jesus”, desde que entendamos que o que estamos dizendo é:
“O sangue de Jesus, derramado na cruz do Calvário, nos deu a vitória, que é a
vida eterna” (ZÁGARI, 2012, p. 98).
Nessa mesma
perspectiva, Jesus afirma: "Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste
mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo" (Jo 13:33, NVI). Jesus deixa claro que o nosso triunfo não é terreno, afirmando que
enquanto estivermos neste mundo, as aflições serão inevitáveis, porém temos uma
grande esperança, a grande mensagem do Evangelho, a de que um dia todo
sofrimento cessará, e habitaremos livres e triunfantes com Cristo em seu Reino.
É verdade que
Deus nos abençoa, ainda nesta vida, de várias maneiras, Ele nos dá vitória e
triunfos em diversas áreas, porém essa não é a ênfase do Evangelho e nem uma
garantia, pois estamos completamente sujeitos à vontade de Deus e Ele, de fato,
abençoa a quem quer:
Como está escrito: "Amei Jacó, mas rejeitei Esaú". E então,
que diremos? Acaso Deus é injusto? De maneira nenhuma! Pois ele diz a Moisés:
"Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão
de quem eu quiser ter compaixão". Portanto, isso não depende do desejo ou
do esforço humano, mas da misericórdia de Deus. (Rm 9:13-16, NVI, grifo meu).
Dessa forma,
fica claro perceber que todo realce dado a conquistas terrenas, em detrimento
da verdadeira vitória do cristão, que é a salvação através do sacrifício de
Jesus, é falsa e gera graves consequências para o povo que é envolvido por essa visão turva, ineficaz, e que não tem poder algum contra o pecado.