09 junho, 2017

A alegria na humilhação do EU




"O homem que realmente chora por causa de seu estado e condição pecaminosos é o homem que haverá de arrepender-se; e, na verdade, ele já começou a arrepender-se. E o homem que verdadeiramente se arrepende, em resultado da obra do Espírito Santo, é o homem que certamente será conduzido aos pés do Senhor Jesus. Tendo-se conscientizado de sua extrema pecaminosidade e desamparo, passa a buscar um Salvador, e encontra esse Salvador em Jesus Cristo".

Martyn Lloyd-Jones


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Por Ruy Cavalcante

Na vida cristã, a alegria é precedida do choro e isso é especialmente verdadeiro no momento da conversão.

A verdadeira conversão não se dá mediante pulos de alegria, mas sim mediante a humilhação de mim mesmo, ao me reconhecer pecador, imperfeito, incapaz de salvar-me.

Essa é a chamada que o profeta Joel faz ao povo que, insistentemente, mantinha-se de olhos fechados para seus próprios pecados, enquanto Deus constantemente os alertava com juízos terríveis (Joel 1:4-7), até que o juízo definitivo viesse (Joel 2:1). Diz assim o profeta:

Todavia ainda agora diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto. E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes; e convertei-vos ao Senhor vosso Deus; porque ele é misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade, e se arrepende do mal (...) congregai o povo, santificai a congregação, ajuntai os anciãos, congregai os meninos, e as crianças de peito; saia o noivo da sua recâmara, e a noiva do seu tálamo”. (Joel 2:12-13, 16)

É como se provocasse: Vocês estão se alegrando e festejando o que? A calamidade está em nossa porta, cessem os sorrisos, até os noivos ignorem sua alegria, pois a tragédia já nos espera e a culpa é nossa!

Algo parecido ocorre com o profeta Isaías, desta vez não mediante profecia, mas em sua própria experiência. Ao vislumbrar a santidade e perfeição de Deus numa visão, Isaías se escandaliza de si mesmo e brada: ai de mim, estou perdido! (Isaías 6:5). Ele viu a si mesmo confrontado com a perfeição divina.

Vejam também o que ocorre com o povo do exílio que retorna para reconstruir Jerusalém e seu templo. Ao serem confrontados com as verdades recém-compreendidas da Lei, percebendo o quão distantes estavam da vontade de seu Deus, põem-se a chorar (Neemias 8:9). O choro que antecede a verdadeira conversão, ou o que muitos chamam de “quebrantamento do coração”.

É após esse descortinamento de quem eu sou, do reconhecimento de meu valor ínfimo, que poderei ser alguém pobre de espírito (Mateus 5:3), e por causa dessa pobreza, eu choro, eu me angustio, eu me desespero.

Mas logo serei consolado. Esse reconhecimento, essa dor, esse choro precede o descobrimento do Salvador (Mateus 5:4). Ele virá e me consolará com seu próprio sacrifício. Ele me resgatou e agora eu sou um bem aventurado! Mas não antes da pobreza de meu espírito, não antes de meu choro. O choro por descobrir quem eu sou.

Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados”.

Todo esse processo é gerado pelo próprio Deus, tendo como ferramenta para tal o seu Evangelho. Sem evangelho não há arrependimento, não há quebrantamento, não há salvação.

Mensagens diversas desta podem até nos animar por algum tempo, mas logo nossa desgraça se escancara, cessando apenas com a água da vida, mediante a qual nunca mais teremos sede.



24 abril, 2017

Santos em meio a depravação




Por Ruy Cavalcante

A carta de Paulo aos romanos é considerada por muitos, inclusive por mim, o documento doutrinariamente mais completo de toda a Bíblia. A partir da compreensão dela muitos eventos chaves ocorreram na história da Igreja Cristã.

Uma questão introdutória importante sobre esta carta são justamente seus destinatários.

A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos (ou ‘chamados para serem santos’)” (Rm 1:7a).

Paulo escreve aos cristãos de Roma, e que coisa incrível é haverem cristãos em Roma!

Lembremos que Roma era a capital do Império e onde sem concentravam os poderes políticos, econômicos, bélicos e onde especialmente se manifestava toda a depravação moral da cultura e sociedade greco-romana. O próprio Paulo nos dá uma descrição dessa realidade nos capítulos 1 e 2 desta carta, quando trata de toda a perversão gentílica.

Tal descrição se assemelha ao que sabemos sobre Sodoma e Gomorra, com uma diferença: mais do que um homem e suas filhas, ali se encontrava um povo chamado de santo, como uma garça branca, que mesmo vivendo em meio a lamaçais, não sujava suas vestes.

Como isso foi possível? O que aconteceu para que estas pessoas, deixando a cultura depravada, porém comum, onde foram criadas, vivessem como amados e santos de Deus? O que os transformou a ponto de se tornarem tão diferentes dos demais? A resposta é simples:

O Evangelho.

O Evangelho fez o que não era possível ser feito por qualquer outro meio. É por esta razão que Paulo inicia a conclusão de sua introdução à carta, afirmando:

Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” (Rm 1:16).

Mesmo com tantos ataques e escárnios proferidos contra o Evangelho, mesmo com tantos riscos a quem o proclama, Paulo não podia se envergonhar dele, pois era o Evangelho, e somente o Evangelho, o único meio escolhido por Deus que, com poder eterno, realizava a obra de regeneração e salvação do homem. O poder de Deus para salvação humana está centrado, por decisão Soberana do próprio Deus, no Evangelho.

Nada mais pode fazer o que ele faz.

A mensagem que transformou aquela porção de gente outrora depravada, em santos e amados de Deus, foi a do Evangelho que agora Paulo expõe em toda carta.

Essa mesma verdade precisa voltar a aquecer o coração da igreja hoje. Não é concebível que negligenciando estas coisas, tentemos o mesmo efeito com mensagens centralizadas em coisas temporais e inócuas.

Isso jamais será possível e esta é uma das grandes razões pelo qual a igreja contemporânea pouco se difere culturalmente, em suas práticas e costumes, da sociedade onde está inserida. Não há como regenerar o coração humano com mensagens triunfalistas, reduzindo a fé a um sistema de crenças sobre coisas possíveis e tangíveis como o dinheiro e um melhor emprego.

Eis porque evangélicos em todo lugar continuam vivendo como se não conhecessem Cristo, furtando, sendo desonestos, iracundos, envolvendo-se em adultérios e corrupções políticas. Eles não conheceram e creram no Evangelho, mas em promessas finitas e muitas vezes mentirosas, proferidas por líderes perversos ou, quando muito, incautos.

Igrejas lotadas de crentes carnais, este é o resultado de uma pregação sem o verdadeiro Evangelho da Cruz. Diferente de Roma, uma cidade perversa e depravada, mas onde viviam um povo santo que foi santificado por ter conhecido tal Boa Nova.

O Evangelho, e somente o Evangelho, é o poder de Deus para salvação, e tudo o que a acompanha. Lembre-se disso.



28 fevereiro, 2017

Carta de Campina Grande - 19º Encontro para a Consciência Cristã




A exemplo dos anos anteriores, ao final do 19º Encontro para a Consciência Cristã, em Campina Grande - PB, foi produzido um documento que resume toda a produção teológica dos 6 dias do congresso, assinada por vários líderes e palestrantes do evento, e que sugere soluções e faz alertas quanto aos rumos em que a igreja evangélica brasileira tem tomado.

Nesta oportunidade especial, a carta reafirma fundamentos essenciais da Reforma Protestante, a qual comemoramos seus 500 anos no próximo dia 31 de outubro de 2017.

Segue a carta em sua íntegra.

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Carta de Campina Grande - 2017 


Há 500 anos, em 31 de outubro de 1517, o monge alemão, Martinho Lutero afixou às portas do castelo de Wittenberg as suas 95 teses denunciando as indulgências e os excessos da Igreja, iniciando com tal ato a Reforma Protestante. 

Hoje, quinhentos anos depois, a igreja evangélica brasileira tem enfrentado crises, lutas e desafios, como também o surgimento de heresias e graves desvios teológicos. Como se não bastasse, por fatores diversos, constatamos que uma parcela significativa do evangelicalismo brasileiro tem abandonado o compromisso com o evangelho ensinado por Cristo, proporcionando com isso um claro e real afastamento das doutrinas defendidas pelos reformadores.

Para piorar a situação, os últimos anos têm sido marcados pela ação de lobos ferozes, que mediante ensinos espúrios têm induzido o povo de Deus a erros crassos, comercializando a fé, vendendo o evangelho e negando a Cristo.

Diante disto, nós, membros da igreja de Jesus Cristo, participantes do 19º Encontro para a Consciência Cristã, além de repudiarmos aqueles que tem feito da igreja um negócio, celebramos a comunhão que desfrutamos como povo de Deus, unidos ao redor do evangelho de Cristo, e afirmamos: 

1. Que a Escritura é a inerrante Palavra de Deus, além de única fonte de revelação divina, como também única para constranger a consciência. Afirmamos também que a Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e que ela é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado. Negamos também que qualquer concílio ou líder religioso possa constranger a consciência de um crente, e que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação doutrinária. 
2. Que a salvação do pecador se dá única e exclusivamente pela obra mediatória de Cristo Jesus na cruz. Afirmamos também que Cristo não cometeu pecado e que sua morte, expiação e ressurreição por si só são suficientes para nossa justificação, redenção e reconciliação com Deus. Além disso, negamos que o evangelho possa ser pregado sem a proclamação da obra substitutiva de Cristo, bem como seja possível alguém ser salvo fora de nosso Salvador.
3. Que ao sermos salvos por Cristo somos resgatados da ira de Deus unicamente por sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, concedendo-nos fé e arrependimento, libertando-nos de nossa servidão do pecado e erguendo-nos da morte espiritual para a vida espiritual. Negamos também que a salvação seja possível mediante ações ou obras humanas, como também afirmamos que acreditamos que métodos ou estratégias humanas por si só não podem realizar a transformação do pecador. 
4. Que a justificação é somente pela graça, somente por intermédio da fé, somente por causa de Cristo. Afirmamos também que a justificação, a retidão de Cristo, nos é imputada como o único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus. 
5. Que como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela ocorre para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Afirmamos também que como cristãos devemos viver perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente. Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos ou confundirmos a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a autoestima e a auto-realização se tornem opções alternativas ao evangelho.

Assim, confiantes na graça de Deus, assumimos este compromisso diante de Deus e de seu povo de perseverar nessa fé, colocá-la em prática e ensiná-la com todo empenho, para vermos em nossa nação brasileira um poderoso progresso do evangelho de Cristo.

#Sola fide
#Sola scriptura
#Solus Christus
#Sola gratia
#Soli Deo gloria



03 janeiro, 2017

Batalha Espiritual (Somente para os fortes)



Por Ruy Cavalcante

Poucos temas dentro do cotidiano evangélico brasileiro me parecem tão controversos quanto a chamada “batalha espiritual”. A questão se dá pelo fato de ser um assunto que está sempre em voga, mas a maioria parece ignorar completamente os fundamentos básicos do tema.

É incrível como se proliferam seminários, congressos e encontros sobre Batalha Espiritual Brasil a fora, ao mesmo tempo em que parecem se distanciarem cada dia mais do cerne da questão. Na maioria das vezes não existe preocupação alguma com as verdades bíblicas referentes a isso, voltando-se apenas para soluções imaginárias e extravagantes, na expectativa de que funcionem. Soluções de ideologia pragmática, porém sem nenhuma efetividade.

Vou direto ao ponto.

Batalha espiritual existe sim, e a bíblia fala bastante sobre ela. Temos sim um inimigo, a saber, satanás (I Pe 5:8), e ele é feroz. Outra coisa importante é que podemos vencê-lo, havendo para isso necessidade de ação.

Posto isso, resta afirmar algo que parece ser completamente ignorado por boa parte da igreja evangélica brasileira, que é o fato inequívoco de que esta batalha não se vence com retiros espirituais, cultos de libertação, veredas antigas, exorcismos, atos proféticos, quebras de maldições, utensílios consagrados, óleos ungidos ou coisas do tipo que só encontram fundamento na capacidade criativa e imaginária do povo.

Sim, a batalha existe e ela é terrível, porém vencemo-la da maneira mais simples possível, haja vista haver apenas uma arma nessa guerra. A Espada. O Evangelho.

Nada de soluções mirabolantes e fardos dificílimos de carregar a fim de vencermos nossa batalha contra satanás. Permita-me fazer uma simples analise do texto áureo utilizado pelos “grandes” arautos da batalha espiritual no Brasil, e nele poderemos observar claramente a simplicidade dessa questão. Eis o que o apóstolo Paulo diz aos efésios, para que vençam a batalha:

Por isso, vistam toda a armadura de Deus, para que possam resistir no dia mau e permanecer inabaláveis, depois de terem feito tudo. Assim, mantenham-se firmes, cingindo-se com o cinto da verdade, vestindo a couraça da justiça e tendo os pés calçados com a prontidão do evangelho da paz. Além disso, usem o escudo da fé, com o qual vocês poderão apagar todas as setas inflamadas do Maligno. Usem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”. (Efésios 6:13-17)

Sem maiores elucubrações teológicas, eis uma lista dos “utensílios” da armadura, necessários para a vitória cristã nesta disputa, seguidos de seus significados.

  • Cinto da verdade (A verdade é a Palavra de Deus – Jo 17:17);
  • Couraça da Justiça (A justiça de Deus é o cumprimento de sua Palavra – Sl 119:142);
  • Evangelho da Paz (O Evangelho é a própria Palavra – Ef 1:13);
  • Escudo da fé (A fé é gerada quando ouvimos Palavra – Rm 10:17);
  • Capacete da salvação (A salvação se dá por meio da fé [Ef 2:8], e a fé é gerada pela palavra – Rm 10:17);
  • Espada do Espírito (A própria palavra, única arma nessa batalha).

Percebeu que tudo gira em torno da Palavra?

Isso acontece porque somente o Evangelho é o poder de Deus para salvação (Rm 1:16), todo o resto é COMPLETAMENTE ineficaz, inócuo, inútil. Quebras de maldições e seminários de libertação e de batalha espiritual são sem sentido. Precisamos da compreensão de que tudo já foi feito por Cristo na cruz. 

Como então se quebra uma maldição? Pregando o Evangelho por um lado, e recebendo-o, pelo outro.

Como se liberta alguém da opressão maligna? Pregando o Evangelho por um lado, e recebendo-o, pelo outro.

Como pode o homem vencer a batalha contra satanás? Pregando o Evangelho por um lado, e recebendo-o, pelo outro.

Vejamos outro texto importante, também do Apóstolo Paulo, mas desta vez dirigindo-se aos coríntios: 

Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne, pois as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus, para demolição de fortalezas; derribando raciocínios e todo baluarte que se ergue contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência a Cristo; e estando prontos para vingar toda desobediência, quando for cumprida a vossa obediência”. (II Co 10:3-6)

Nossas armas não são carnais, mas poderosas em Deus. Quem é o poder de Deus para salvação? Acho que o leitor começou a compreender, não é mesmo?

Estas armas quebram raciocínios contrários ao conhecimento, à verdade de Deus, e levam cativos os pensamentos à obediência a Cristo. Somente o Evangelho é capaz de realizar estes feitos na mente humana, tornando-a cativa a Cristo, mentes renovadas, metanoia.

Tratam-se de ações puras (e simples) do Evangelho. É Cristo quem vence a batalha por nós, e é seu evangelho que nos entrega “de mãos beijadas” a vitória. 

Eis uma das razões pela quais ritos e exorcismos precisam ser continuamente renovados, e seminários se proliferam a todo instante, pois carecem de sentido e afastam o povo do Evangelho, uma vez que este acaba se tornado um simples adorno das reuniões.

Portanto eu insisto, o Evangelho não é para adornar ou simbolizar que somos de Cristo. O Evangelho é a solução definitiva e eficaz não somente para a disputa contra satanás, mas para a salvação indissolúvel do ser humano!

Assim, pregue o Evangelho e vença a batalha!


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Há muito mais o que se dizer a respeito de batalha espiritual, e muitas outras perspectivas pelas quais este assunto pode ser abordado. Para quem desejar aprender um pouco mais, indico duas obras bem interessantes e de fácil leitura:

VARGENS, Renato. Batalha Espiritual - Respostas as perguntas frequentes sobre o conflito dos crentes com Satanás. Campina Grande: VCP Editora, 2014.

ARAUJO, Marco Antonio; CHAVES, Osvaldo; MARTINS, Luiz Fernando; MENEZES, Silas Batista; SILVA, Adriano Conceição. A grande batalha espiritual: Verdades e mentiras sobre a luta da luz contra as trevas em pleno século 21. E-book. (disponível gratuitamente através do excelente blog Apenas, de Maurício Zágari - Clique aqui para baixar)